FOTOBECO EDIÇÃO 5

Sobre o ensaio

Mukunã

Por Juh Almeida

Som de cabelo sendo penteado por um pente garfo, música baixa no rádio, vozes de mulheres falando como se cantassem, “homem, pega ali minha cerveja”, “trança do lado de cá também”, “você acha mesmo que eu fico bonita com esse penteado?” E foi com essa paisagem sonora que meus pés me levaram para dentro do salão da Constance, na sétima província de Maputo, em Moçambique.

Com a licença, entrei, cumprimentei cada uma delas e meu coração confirmou que já nos conhecíamos há muito tempo. Meu corpo de mulher negra, afro-brasileira e diaspórica tremeu ao atravessar o Atlântico e pisar no Índico, e ali, entre as paredes esverdeadas, eu lembrei do mar, e não me sentia mais naufragada, mas como se pisasse em terra segura.

Fui arrebatada pela potência e força que emanava daquelas mulheres. Suas histórias escoavam pelos meus pensamentos como lembranças antigas, do verde-água pintado pela própria mão da Constance, mãos ligeiras que agora ali trançava o cabelo das suas amigas, mãos que seguravam sua filha nos braços, mãos que amarraram como presente uma capulana na cintura e que, em um abraço acalanto eu pude entender: eu estava em casa.

Juh Almeida

Minibio

Juh Almeida, nasceu na Bahia, e hoje transita entre São Paulo e Rio de Janeiro. Desde 2010 mescla vida e arte, com recorte em afrovisualidades, expressando-se através do cinema de forma poética, experimental e documental. Graduou-se no Bacharelado Interdisciplinar em Artes com concentração em Cinema pela Universidade Federal da Bahia. E é mestranda em cinema pela Universidade de São Paulo.

Como diretora, Juh Almeida dirigiu e roteirizou curtas metragens autorais “eu, negra”, “Irun Orí” e “Náufraga”. Dirige videoclipes, projetos de ficção, documentários, fashion, ensaístico e artístico. Atualmente é diretora de cena na Pródigo Filmes, onde atua dirigindo filmes publicitários. Seu último trabalho significativo foi fazendo parte do time de diretores da telenovela premiada e de sucesso Vai Na Fé na Rede Globo.

Juh acredita na construção de novos imaginários como ferramenta revolucionária e de mudança social.